| O DIÁRIO - ‘Europeus pagarão a conta da crise atual’ |
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| Seg, 21 de Novembro de 2011 07:57 |
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‘Europeus pagarão a conta da crise atual’ Vinícius Carvalho O Diário do Norte do Paraná Os bancos que lucraram com a farra do crédito fácil e do boom imobiliário, no início dos anos 2000, jogaram o mundo à beira do precipício econômico. Europa e EUA gastaram centenas de bilhões de dólares para apagar o incêndio, mas só conseguiram criar uma crise ainda maior. Agora, a conta está sendo oferecida ao contribuinte. Em linhas gerais, esse é o resumo da crise financeira internacional na visão do economista Antônio Gomes de Assumpção, do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Especialista em Economia Brasileira, ele é o coordenador do Grupo Conjuntura Econômica, que publica um boletim trimestral sobre a situação do Brasil e do mundo desde 1995. Desde a quebra do banco Lehman Brothers, em 2008, o mundo está em crise. Só este ano, caíram os governos de Portugal, Irlanda, Grécia e Itália. Para Assumpção, a crise poderia ser menor se, há três anos, os governos obrigassem o mercado a assumir parte das perdas e não tivesse arcado com toda a responsabilidade de cobrir o rombo financeiro. "Parecia que a crise estava resolvida, mas hoje vemos que não. O que era um problema localizado, nos bancos, nas bolsas de valores, passou a ser uma crise da sociedade", explica o economista. Nesta entrevista, o professor detalha como o problema chegou ao ponto crítico atual e o que o Brasil precisa fazer para se prevenir de futuras instabilidades. O Diário - O que ocorre na Europa agora e qual a relação com a crise de 2007/2008? Antônio Assumpção - O momento atual é um desdobramento da crise de 2007/2008. Hoje, ela é muito mais grave. Começou como uma crise financeira, que afetava bancos e o setor imobiliário. Hoje, se tornou uma crise fiscal. Quando atinge esse nível, afeta toda a sociedade. Na crise financeira, houve diminuição de crédito e perda de riqueza. No Brasil, a Bolsa de Valores caiu pela metade. Nos EUA, os valores dos imóveis também caiu pela metade. Daí entraram os governos socorrendo o setor financeiro. Quando eles têm lucro, é tudo privatizado, mas quando há prejuízo, ele é socializado. Nos EUA e na Europa, os governos entraram para estabilizar a economia, transferindo renda para os fundos de investimento e bancos, que estavam quebrando. Parecia que a crise estava resolvida, mas hoje vemos que não. O que era um problema localizado, nos bancos, nas bolsas de valores, passou a ser uma crise da sociedade. O Diário - Para salvar o setor privado, os governos ampliaram a dívida e agora não conseguem se financiar? Antônio Assumpção - Exatamente. Houve um crescimento da dívida, com a emissão de mais títulos, principalmente, nos Estados Unidos. Na Europa, há outros aspectos. O Diário - Por que a situação da Europa é mais grave? Antônio Assumpção - Há décadas, os países europeus desenvolvem a política de bem-estar social, que significa ampliação de gastos. É o caso das aposentadorias, em um continente onde grande parte das pessoas já não trabalha. Também gastavam com renda mínima para desempregados, na área da Saúde e outros auxílios à população. Os gastos públicos já eram elevados. A carga tributária, o que o governo arrecada em proporção da renda, já era alta. Com o agravamento da crise, isso chegou a uma situação crítica. É o que vemos em países onde a dívida pública é maior que o Produto Interno Bruto (PIB), como ocorre em Portugal, na Irlanda, Grécia e Itália. Para rolar essa dívida, o governo terá que se financiar. E ele se financia tirando renda da sociedade. O Diário - O mercado está muito instável. O que os agentes financeiros esperam para se acalmarem? Antônio Assumpção - Eles esperam um milagre, que não vai ocorrer. Já há perda. Na Grécia, os bancos e fundos de investimento reconheceram que não vão conseguir receber tudo o que tinham para receber. Os mercados terão que assumir, pois os governos não conseguem bancar tudo isso sozinhos. Se essa perda tivesse ocorrido há dois ou três anos, o problema fiscal teria sido menor. Mas lá atrás, os governos resolveram bancar. Agora, chegou-se a uma situação que não tem mais como. Então alguma perda vai ocorrer. Na Grécia e na Itália, foram substituídos governos políticos por governos técnicos. Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano havia anos, foi substituído por um professor de Economia (Mario Monti), com experiência no Banco Europeu. Isso porque os governos estão sendo obrigados a tomar medidas impopulares. Os políticos têm dificuldade e não são capazes de tomar essas medidas. Daí entram os técnicos. A população reclama e tem razão para protestar. O Diário - O que acontece agora com o povo desses países? Antônio Assumpção - Eles vão pagar a conta. Os governos vão aumentar impostos e reduzir benefícios. Isso significa menos aposentadoria, menos salário no setor público, gastos e transferências na área de Saúde e Educação. A população vai perder. Por isso, os políticos saem de cena e dão lugar aos técnicos, que geralmente não estão de olho na próxima eleição. A população vai continuar reclamando, mas agora parece que não tem mais saída. O Estado já assumiu esse custo. Agora alguém tem que pagar. O Diário - Isso deve acalmar o mercado financeiro? Antônio Assumpção - O mercado trabalha muito com expectativas. O que ele mais detesta é a incerteza. O mercado espera que se estabeleça um novo padrão, com estabilidade. Ele quer saber o quanto da dívida será paga e o quanto não será. Ele quer definição. Com essa definição, eles podem voltar a trabalhar em uma certa normalidade, mesmo assumindo um certo prejuízo. O Diário - Como tudo isso afeta o Brasil? Antônio Assumpção - Todas as economias estão interligadas de uma forma que seria ingenuidade pensar que o Brasil não será afetado. O Brasil já está sendo afetado. Projetava-se um crescimento econômico entre 4% e 5%, mas teremos algo em torno de 3%. Temos fluxos comerciais e financeiros, que são as duas formas como a economia pode ser afetada: pelo comércio exterior e pelo financiamento. Uma vantagem relativa muito boa que o Brasil tem é a de não depender tanto do fluxo financeiro, de financiamento externo, como na década de noventa. O Diário - O que o Brasil precisa fazer para se prevenir de mais instabilidade? Antônio Assumpção - Nosso problema é competitividade. Hoje, a economia brasileira tem um bom desempenho comercial em função principalmente das exportações e dos preços das commodities minerais e agrícolas. A soja, a carne e o açúcar sustentam as exportações do País. Isso tem muito a ver com a demanda da Ásia, principalmente, da China. Isso está nos tornando vulneráveis no aspecto comercial. Nossa indústria não é competitiva e estamos sendo compensados pela demanda internacional e o preço das commodities. Uma crise na Europa vai diminuir a demanda e o preço. Por enquanto, a Ásia compensa isso. É uma situação que não dá tranquilidade, nem garantia, a médio e longo prazos. Porque nossa indústria tem um custo muito grande, associado a vários fatores. Temos uma carga tributária muito alta, que incide principalmente sobre a produção. Temos uma infraestrutura de transporte e de portos muito precária. Além disso, temos defasagem tecnológica. E por fim, temos uma taxa de câmbio apreciada. Isso tudo, torna nossa economia menos competitiva. Precisamos enfrentar isso, mas não se resolve rapidamente, no curto prazo. A minha preocupação é que não vejo decisão política para enfrentar essas questões. Jornal O Diário do Norte do Paraná 20/11/2011 às 02:00 - Atualizado em 20/11/2011 às 02:00 http://maringa.odiario.com/maringa/noticia/512641/europeus-pagarao-a-conta-da-crise-atual/ |
